a foto riscada
e o dia das mães
Antes de começar o texto, eu quero deixar um aviso de que a crônica é sobre a minha mãe e sobre como minha história se encaixa com a dela. Se este for um tema um pouco mais sensível, avalie a leitura. De qualquer forma, obrigada por abrir este e-mail. 💖
Eu não sei ao certo quando me dei conta de que, dentro de casa, existia uma estrutura familiar na qual eu tinha um pai, uma mãe e dois irmãos. Eu sabia que alguém cuidava de mim e, em sua maioria, no dia a dia, era a minha mãe.
O meu pai saía para trabalhar muito cedo e chegava em casa no fim do dia. Digamos que, com ele, em sua maioria, era tudo “uma festa”. Nós brincávamos, ríamos e ficávamos juntos naquele meio tempo.
Tenho referências ótimas sobre o meu pai e histórias que eu ainda quero escrever. Entretanto, mais da metade da minha jornada é dividida com a minha mãe.
Acredito que já comentei em outra edição um pouco sobre sua história. Nascida no Maranhão (MA) e criada no Piauí (PI), ela trabalha desde os nove anos. Então, desde que me entendo por gente, ela segue um modus operandi: acordar às 05h30, quase todos os dias, e descansar apenas no final do dia.
Ouso dizer que, na minha época da escola, este horário era ainda mais cedo, para me arrumar, dar café e me colocar na van escolar. Às vezes, eu a questiono se ela não gostaria de dormir um pouco mais e ela apenas responde: “Eu não consigo”.
Eu costumava passar parte do meu tempo com a minha mãe. Tenho uma irmã que vai completar quarenta anos no final do mês e um irmão de quarenta e um.
Ou seja, ser mãe já era um papel desempenhado há cerca de onze anos. Não eram “novidade” os choros da madrugada e algumas artimanhas já eram reconhecidas nas tentativas e erros da educação dos meus irmãos.
Com o olhar quase que direcionado para a nova cria da casa, eu aprendi - aos trancos e barrancos - o que é o respeito, a cuidar das minhas coisas e a compreender que o cartão de crédito não era milagroso: a conta chegava ao final do mês.
Presentes só em datas comemorativas e olhe lá, dependia muito do valor. Chocolates só na compra do mês e, ao acabar, acabou. Pedir comida em casa era quase como um luxo - o qual devo ter vivenciado uma ou duas vezes. Afinal, se tem arroz e feijão, para que pedir uma pizza?
Lembro de questionar, muitas vezes, algumas decisões da minha mãe - como a de ter uma cadeirinha para o castigo, na qual eu passava um bom tempo quando fazia algo errado. Digamos que para “refletir” sobre os meus atos.
Na minha cabeça, as minhas amizades estavam certas e eu só precisava de espaço e liberdade, mesmo tendo apenas onze anos de idade. Eu tive uma fase um tanto quanto rebelde, na qual acreditava que a vida poderia ser muito melhor se eu apenas fosse uma garota legal - no sentido de: “já pegar um ônibus sozinha”, “passar um tempo no centro com os colegas” e por aí vai.
Eu demorei para compreender algumas coisas. Especialmente que a minha mãe estava certa em muitas das suas escolhas. Mas foi só quando entrei em depressão, aos quinze, que pude compreender que, se há um prazer em ser mãe, também existe um certo peso no processo. A culpa silenciosa por sempre esperar ter feito o melhor. A dor de não saber como tirar outra dor.
Ainda não posso dizer que sei o que é ser mãe, mas não faz muito tempo que descobri o que é ser filha. No meu momento mais frágil, foi quando olhei para o lado e percebi que a minha mãe também tem sentimentos e, por mais que ela os deixe silenciados, eles existem e eu tenho interesse em acessá-los.
Não agradeço a depressão ou o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mas vejo que foi neste momento, tão intenso, em que eu começava o meu tratamento, que olhei para a minha mãe com muito mais cuidado.
Foi quase como fazer uma retrospectiva de todas as vezes em que ela me disse “eu te amo” sem ao menos dizer uma só palavra. Seja acordando às 04h, me incentivando a ler e escrever, me ensinando o que é amor e respeito, me mostrando que eu posso ser uma pessoa independente ou que não devo me humilhar para caber na vida de ninguém. E tantas outras coisas.
Antes de escrever este texto, eu encontrei uma foto nossa, minha e da minha mãe, em que havia um risco. Eu fiz este risco quando era criança, provavelmente quando minha mãe me disse que eu não deveria fazer alguma coisa. Nem lembro o que era, mas lembro de riscar e esconder a foto.
Hoje, eu daria tudo para voltar ao colo da minha mãe - digamos que ela não me aguenta mais, coisas da vida. Não culpo a minha criança que riscou, mas acolho a minha versão adulta, que hoje transborda amor, paciência, carinho e admiração.
Muitas mães se questionam sobre como podem fazer as escolhas certas, mas nós, filhos, muitas vezes queremos apenas ter razão. A virada de chave é quando a gente compreende que também temos o nosso papel nesta relação. É quando nos encontramos na dúvida sobre como podemos ser melhores. E, muitas vezes, a resposta está no diálogo.
Ainda estou descobrindo coisas sobre a minha mãe. Não porque ela escondeu de mim, mas porque, antes de tudo, construímos uma relação de confiança - que não foi moldada apenas no amor, mas, muitas vezes, até na dor.
A minha mãe é o meu maior exemplo de bondade e justiça. Justiça é uma palavra que combina bem com ela. Amor também cai superbem sobre ela. É isso: ela é amor. E amor, no final das contas, também tem sua dose de justiça.
Mãe, não se cobre perfeição. Você também me ensinou a não me cobrar por isso. Olho para o mundo com olhos que desejam viver, inspirados pelos passos que você já deu, mas chamando-os de “meus”. E, quem sabe, na melhor das hipóteses, nossos.
Te amo.
Você é a minha maior inspiração de vida.
Meu coração bate mais forte por você e ao seu lado.
A minha conquista mais importante é fazer você sorrir.


