amarras algorítmicas
um dia ficarei sem elas?
Era meados de 2018 e eu estava construindo, no bloco de notas do meu celular - um Samsung velho de guerra com a tela trincada - uma ideia de projeto que, até então, se parecia com um blog e um perfil no Instagram.
Eu já tinha mapeado potenciais editorias e temas sobre os quais eu gostaria de abordar. E, para ser sincera, eu não lembro muito, mas queria escrever sobre as sensações e as emoções. A verdade é que, na época, eu estava à beira do esgotamento profissional - as coisas me pareciam travadas e eu me sentia completamente desmotivada.
Como quase tudo que eu me colocava a fazer naquela época, o projeto também foi engavetado. Não me culpo, foi o mais racional perto de tanta irracionalidade. Agora, ao escrever, eu também me recordo de que estava emocionalmente quebrada. Pelo menos, estava perto de terminar a faculdade e, quem sabe, voltar a dormir oito horas por noite (a realidade era dormir apenas quatro).
A vida aconteceu e, com ela, tantas coisas aconteceram. Em suma, eu terminei a faculdade, comecei a namorar e, um pouco mais para o final de 2019, eu mudei de emprego.
Tudo isso me parecia um bom recomeço para uma vida feita de recomeços. Começar algo “do zero” nos dá a sensação de que todas as outras tentativas ficaram para trás e que a vida voltou a fazer sentido. Mas é cruel demais limitar a vida ao que deu certo ou errado. A vida, ao final, não é um nem o outro. É só a vida. E o “só” é muita coisa.
Em 2020, com a chegada da pandemia, tudo mudou. O medo nos aproximou e até nos fez acreditar na construção de um novo normal, em que as pessoas compreenderiam um pouco mais as outras, em que o mundo seria mais gentil e humano (mesmo com um governo caótico, naquele momento), que o remoto chegou para ficar e nós nos cuidaríamos para sair bem de tudo isso, dentro do possível.
Estava completamente abarrotada de trabalho. A área de comunicação não parou na pandemia - precisávamos construir os materiais com os protocolos, os vídeos do presidente enviados às segundas-feiras para toda a companhia, os conteúdos complementares, as ações de cultura e tantas outras coisas.
Para mim, trabalhar aos finais de semana não era novidade. Já era um hábito. No meio de tudo isso, eu achei que faria sentido resgatar aquela ideia da gaveta - isso, aquela mesma que falava sobre sensações e emoções. Eu queria colocar para o mundo as palavras que já me sufocavam e criei o “Eu rascunhei”.
Basicamente, o “Eu rascunhei” era um espaço para publicar todos os meus rascunhos, aqueles textos que eu não dividia com ninguém, as ideias que moravam dentro de mim. Eu achei que seria um refúgio, mas acabou se tornando quase como uma prisão pela performance.
Eu acompanhava algumas pessoas “especialistas” em criação de conteúdo e elas me falavam: poste todos os dias, é importante ter relevância, presença, relacionamento, qualidade e tantas outras coisas. Elas me vendiam uma ideia que não era palpável naquele momento.
Certo dia, uma “guru”, digamos assim, abriu a caixinha de perguntas e eu pedi para ela avaliar o meu perfil. Resumidamente, ela disse algo como: “não dá para entender o que você quer passar com esse perfil”. Aquilo foi o xeque-mate para voltar o rascunho às suas origens: o rascunho.
O balde de água fria me mostrou algo que eu ainda não tinha percebido: eu também não sabia o que eu queria ser, passar, transmitir. O trabalho tomou conta de mim, somado às cobranças, à intolerância ao erro, ao imediatismo, ao para ontem, para hoje e amanhã.
Eu chorava todos os dias. Todos os dias. Eu não queria acordar no dia seguinte. Era quase como uma punição ligar o computador. Imagina escutar o barulho do teams.
Eu me culpava. Me culpava por sentir tudo aquilo. Me culpava por me sentir exausta. Me culpava pela sensação de que eu deixaria algum prato cair. Me culpava pela dor de cabeça. Pela falta de ar. Pelas dores no corpo. Como pode tudo isso e tão nova assim?
Confesso que era difícil olhar para o lado e reconhecer que eu também estava em um ambiente que esgotava. Receber o diagnóstico de burnout foi como o soco no estômago que eu levei quando estudava no pré em uma escola aqui perto de casa. O que me restou - e ainda bem - foram as lágrimas acolhidas por profissionais que, de certa forma, me libertaram de toda a culpa que eu estava sentindo.
Eu fui afastada do trabalho por alguns meses e, ao olhar para o lado, eu não tinha nada. Não tinha um hobby, não tinha livros, não praticava um esporte. Tirar o trabalho deixou um buraco na minha vida. O desafio, na terapia, era resgatar o que ainda tinha de mim em mim.
A Querida Sanidade nasceu neste resgate. E, talvez, pela primeira vez em muito tempo, eu me deixava ser além de um cargo. Eu me permitia escrever sem culpa e sem a necessidade de validações. Eu criava para mim. Criar salvou a minha perspectiva de vida. Criar não me deu respostas, mas me ajudou a construir caminhos.
E, todas as vezes que eu resgato essa história, eu me lembro do porquê estou aqui escrevendo. Mas não são todos os dias. Tem dias que, na verdade, estou me culpando pela publicação que não engajou. Estou duvidando da minha capacidade de desenvolver algo que performe. Estou arquivando conteúdos por vergonha de alguém perceber - ao comparar com o último post - a minha frustração.
Tem dias que estou sofrendo porque os orçamentos que mandei não foram aprovados. Ou as propostas que enviei sequer foram lidas. E, sempre quando eu me vejo neste looping de sofrimento, eu tento me libertar desta relação tóxica com o algoritmo.
Há alguns dias, eu participei de um podcast e me perguntaram como eu me relacionava com a Querida Sanidade, pela perspectiva de que ela poderia ser o meu trabalho. Ouso dizer que este é um sonho vivo - que eu espero, mas também me preocupa.
Por isso, eu ainda me permito fazer as coisas porque eu apenas quero. Eu me permito escrever textos longos. Eu me permito colocar para fora as minhas inquietudes e encontrar outras inquietudes - e formar um clube só de pessoas inquietas. Eu me permito olhar para o tempo com mais cautela. Eu me permito deixar o celular de lado para vomitar tudo o que eu sinto em uma terça-feira à noite, ao final de maio.
Eu quero criar, mas não quero viver com as amarras que tiram de mim o que já me foi tirado uma vez. Eu escrevo não apenas para dizer “eu estou conseguindo”, mas porque, há algumas horas, eu estava triste por conta de um desempenho que é passageiro.
Não quero sustentar a viralidade de um dia ou, se tudo der certo, dois. Não quero ser alimentada por números ao vento. Eu quero é construir relações verdadeiras, ler o que me escrevem. Escrever de volta. Lembrar de alguém no meio do dia. E, quem sabe, também ser lembrada.
Mas, aqui entre nós, é muito difícil se manter fiel ao que é poético. Por isso, quando me sinto longe, eu escrevo.


Você é lembrada, saiba disso! Independente se posta todo dia ou não. Se cuiiiiiddaaaaa é esses sonho seu e outros virão...estão a caminho. Tamu junta. Um passo de cada vez, com colagens e medos e está tudo bem! Abraço apertado, Edna. Eu adoro sua escrita...nunca a abandone!
Que texto, minha amiga! Que honestidade! Estou vindo finalmente pra cá, em busca disso também.
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