descanso produtivo
e uma partida de buraco
Se eu estivesse na sala da minha primeira terapeuta e compartilhasse os meus últimos dias, eu saberia exatamente parte do seu discurso. Não é que ela seja previsível, mas eu sou.
A última semana foi um tanto quanto pesada para mim. Curiosamente, a carga de trabalho não se compara com a deste momento, mas eu estava mentalmente cansada. Um cansaço acumulado, sabe? Eu pegava o livro, mas não sentia vontade de ler. Eu dormia, mas meu corpo não parecia recuperado. Eu queria ir, mas não sentia vontade de ir.
Quando me sinto assim, inicio um processo interno de colapso, como se a água já estivesse fervida, mas ainda assim com o fogo ligado. Na minha cabeça, eu tenho um filme pronto: de quando tive o esgotamento profissional e fui afastada, de quando fiquei insegura com o meu futuro (não é que eu esteja 100% segura agora), de como foi difícil esse processo de recuperar a minha autoestima.
Venho compreendendo que a vida também é sobre fazer visitas. E voltar para alguns lugares se torna ainda mais difícil quando demoramos tanto para sair deles. Eu sei o que tem lá e como é viver lá, eu preciso realmente ir? Não há como cancelar esta viagem?
Meus olhos ficam marejados só de escrever e imaginar. O meu corpo processa tudo isso com uma intensidade profunda. Eu começo a puxar tudo para a balança - a continuidade dos estudos, o meu futuro no mundo do trabalho, a criação de conteúdo, a vontade de testar novas coisas, o medo de testar novas coisas e todos os enredos criativamente criados por mim.
Fato curioso: assumi mais um projeto no trabalho - o que me deixou animada e preocupada, especialmente quando falaram da importância da minha cadeira na empresa. E essa era a minha cadeira no momento:
No fundo, somos parecidas. Apesar do bom humor, que nos proporciona piadas duvidosas, eu sei que também é uma forma de fugir da tensão de tudo aquilo que me atravessa. O plot twist é que eu finalmente comprei uma cadeira nova. Papo para outra news.
O fato é: eu quero me sentir importante pelo simples fato de ser quem realmente sou, não nas cargas que preciso segurar para provar que sou verdadeiramente importante. Parece que é sempre preciso de mais.
Você cria conteúdo e alcança 50 mil seguidores - o que é um negócio que nunca imaginei na vida - e parece pouco. O que vem depois? Você faz uma parceria com alguém que sempre admirou, o que vem depois? A Grazi Massafera compartilha o seu post, mas qual será o próximo? Terá um próximo? Você compartilha propostas e projetos, mas o seu alcance, em paralelo, diminui. E agora? Perdeu-se o sentido?
Em uma conversa com a Mari Coutinho, cabeça (e todo o corpo) por trás da newsletter Tempo de Qualidade, falamos sobre o apagamento do processo. Sobre o quanto parece rápido realizar algumas coisas, quando, na verdade, demandaram tantas horas dedicadas.
Eu venho sentindo falta do processo. Não quero viver à base de picos de felicidade proporcionados por coisas efêmeras, as quais nem me dou o trabalho de curtir, porque sei que são passageiras - e o que importa é o que vem depois.
Este conflito - que se une ao trabalho e à vida - mexe profundamente comigo. Mas confesso que tenho um certo receio de parecer que estou reclamando de algo como o trabalho de colocar o horário do Brasil nos stories enquanto estou viajando em outro país.
Eu sei que os meus sentimentos são verdadeiros e que não devo diminuir o que estou sentindo. Abro espaço para tudo o que precisa entrar. Apenas venho me sentindo um pouco cansada - e sei que também tenho esse direito.
Por isso, no final de semana, eu tomei a decisão de não me cobrar - mesmo com a decisão de sair de casa com dois livros na bolsa para ler “se eu tivesse um tempo”, risos. Não leio um livro nem em uma semana, imagina só ler dois em um dia.
Eu não abri os livros, não fiquei no computador o dia todo como de costume. Eu tomei um café coado com um pão de milho, enquanto conversava com meus pais. Encontrei o Rafael, brinquei com o cachorro da minha cunhada, assisti ao novo vídeo do Mundo Sem Fim (eu gosto muito de acompanhá-los) no Japão e fiquei imaginando como seria bonito ver as sakuras ao vivo e a cores.
No domingo, fui almoçar com meu tio e minha tia, que nem imaginaram que um churrasco seria feito na casa deles, que se tornou vazia após o falecimento da minha avó, em agosto.
Inclusive, rolou até uma partida de buraco. O buraco é algo simbólico. Quando meu avô e minha avó eram vivos e moravam em um sítio, as partidas de buraco eram importantes e necessárias para dizer: “viajamos ao sítio”.
Curiosamente, enquanto meus pais jogavam, eu andava pelo sítio com uma bolsa e alguns brinquedos dentro, incluindo cadernos e canetas. Foi no sítio que eu aprendi que a minha letra ficava linda ao escrever “liquidificador” e escrevi essa palavra inúmeras vezes só porque gostei.
Eu queria chegar no domingo à noite pensando em como foi bom ver e viver isso mais uma vez na vida, depois de tantos anos. Mas a minha preocupação foi outra - e, olhando para ela agora, eu poderia ter deixado para depois.
Eu escrevo não apenas para que as pessoas leiam. Eu escrevo para lembrar o que é importante para mim. Para lembrar o que o tempo e a rotina tentam levar. O banal que não é banal. O comum que, se eu pudesse, eu viveria todos os dias. Para lembrar que algumas coisas só fazem sentido se eu estiver verdadeiramente viva.
Pois bem. Essa é uma semana animada, mas não lutarei pela exclusão do processo. Abraçarei o que for possível abraçar e processar. E não sofrerei por isso.
Ao descanso produtivo, eu digo: não venha até mim, a menos que você seja uma partida de buraco.




“Mas confesso que tenho um certo receio de parecer que estou reclamando de algo como o trabalho de colocar o horário do Brasil nos stories enquanto estou viajando em outro país” HAHAHAH senti a indireta aqui! 😂
Mas falando de tudo muito importante que você trouxe… me identifico também, talvez de um outro jeito, mas acho que muitas de nós - pessoas sensíveis e mulheres, por quê não? - ficamos nesse limbo. É um conforto desconfortável, igual à cadeira mesmo!
Mas fico feliz em ver a foto da reunião da família, em você descrevendo pequenas mas importantíssimas coisas… e acho que é isso. Esse é o objetivo, talvez?
A gente viver, trabalhar, mas no meio disso tudo encontrar esses momentos banais e bonitos pra registrar. E saiba que seus registros são lindos viu?
Opa bora marcar uma jogatina???? Rsrsrsrs.... eu gosto também!!!! Joice...obrigada mais uma vez por literalmente jogar as cartas na mesa pra falar de suas emoções! Conte comigo! Tudo é um dia de cada vez! E quão riqueza você tem de reparar em você mesma...isso é um grande passo viu?! Bjs Edna