inferno astral
ou apenas uma tentativa de nomear o que sinto
Ontem eu chorei. Mas, se você viu meu post recente no Instagram, sabe que eu sou adepta ao choro, especialmente quando sentimos vontade de chorar. Inclusive, fiquei pensando que foi assim que a gente veio ao mundo: aos prantos. Isso deveria significar alguma coisa (brincadeira).
A verdade é que eu não sei muito bem lidar com a improdutividade. Me sinto um pouco para baixo esta semana. Há um tempo, o meu pai falou algo como: “tenho a sensação de que está tudo em câmera lenta”, e é mais ou menos assim que eu me sinto.
Eu quero trabalhar, mas, ao sentar na cadeira, levo um tempo até me dar conta do que eu tenho que fazer. Eu demoro, mas, depois que eu começo, eu engato, digamos assim.
Para lidar com tudo isso, eu tenho colocado na lista das coisas mais simples as mais complexas. Do tipo: “comprar o livro que prometi à minha amiga” até “construir o planejamento do projeto x”.
De certa forma, eu fico tentando encontrar prazer ao riscar itens das minhas atividades. Me pergunto o que é tudo isso e como administrar esse sentimento, especialmente na semana em que eu não tenho terapia.
Uma vez eu escutei um podcast da Nat, do “Para Dar Nome às Coisas”, em que ela falava algo sobre arrumar a pia - não no sentido figurado, mas na organização interna. Acredito que a minha pia está bagunçada, com louças acumuladas e potes de danone inacabados apenas com a embalagem lambida.
Esta semana eu fui tomar café com uma grande amiga e ela está fazendo uma pesquisa sobre futuros. A pesquisa tem um público específico, uma geração à qual não pertenço, mas confesso que fiquei pensando sobre o meu futuro.
Eu quero continuar fazendo as coisas que eu estou fazendo? Eu quero encontrar mais sentido? Eu quero pegar minhas coisas e viajar? Eu quero, em algum momento, construir uma família? Eu quero ir ao show da Anitta?
São tantas perguntas que não se resumem ao “eu quero”. Elas se entrelaçam com decisões - e eu nunca fui muito boa em tomá-las, talvez seja por isso que elas me assustam. Eu tenho medo de pedir o pastel de frango e pensar que não deveria ter mudado e seguido com o de pizza.
Mas a vida não é um pastel de frango ou pizza. E me dá uma certa raiva quando eu penso - de forma automática - que “já não tenho mais 20 anos”. Esta semana mesmo a minha sobrinha veio falar sobre uma viagem aos jogos universitários da faculdade - mas parece que, há pouco tempo, era eu que estava indo.
É interessante pensar sobre este tópico porque ir aos jogos universitários foi uma decisão minha e, com tantas pessoas dizendo que “não é para você”, “você não vai gostar”, “é uma bagunça”… o ponto, meus amigos e amigas, é que eu também sou uma bagunça. Ir foi uma das minhas melhores decisões.
Ao mesmo tempo que eu desejo uma folha em branco para começar a escrever uma nova história, eu guardo meus papéis amassados, riscados, sublinhados - porque eles também fazem parte de mim.
Nomeei a newsletter como inferno astral porque é o que imaginei que seria tudo isso, visto que meu aniversário está próximo. Mas, em uma busca rápida, entendi que isso acontece 30 dias antes, usualmente. Ou seja, deveria começar na segunda-feira. Mas e se ele chegou antes? É diferente quando está perto dos 30?
Em silêncio, eu tento me escutar um pouco mais para além das necessidades essenciais. Eu fico brincando de um jogo de escolhas, com perguntas imaginárias como: o que você faria se pudesse tomar qualquer decisão agora? Não sei se isso me gera mais ou menos ansiedade, mas me faz acessar espaços que eu nem imagino.
Sinto que passei tanto tempo escolhendo o que todo mundo escolheu que, quando chegou a minha vez de escolher, eu apenas travei. Resgatar o desejo, aquele que mora dentro de nós, requer uma dose de cuidado e de curiosidade.
Também penso que algumas coisas demandam mais atenção e investimento. É normal sentir dúvidas, mas, quando se tem um orçamento limitado, a gente fica pensando ainda mais no próximo passo. Parece que tal condição nos direciona para uma chance única.
Ao mesmo tempo, fico tomando cuidado para não calcular milimetricamente cada movimentação, porque também é no movimento que a gente se encontra. E, pensando assim, às vezes, também é batendo a cara na parede que a gente começa a observar uma espécie de saída.
Que o pessimismo, que bate à porta alguns dias, não influencie o meu olhar otimista para o futuro. Para os 30 que estão chegando e para os demais anos que, se tudo der certo, baterão na minha janela em breve.
Espero ter cuidado com a espera, que por vezes me cobra a entrega de uma encomenda que eu nem pedi e nem sei se vem. Espero esperar, mas sem deixar de ir. Espero lembrar que caminhar nem sempre é sobre dar uma volta ao mundo, mas, quem sabe, atravessar a rua. Espero tantas coisas ao mesmo tempo que não espero nada. Espero não depositar todos os meus sonhos na espera, mas no agora, mas com a compreensão de que os dias improdutivos não deixam de ser dias, eles existem (ainda bem).
Parte de mim fica procurando por respostas e fórmulas que me tirem da fossa. A outra parte apenas aceita a fossa. Como falei à minha terapeuta outro dia, quando acessamos lugares solitários, tal qual foi a depressão para mim, o maior medo é a fossa ser a porta de entrada para algo maior.
Alguns falam,
outros cantam,
eu escrevo.


E não se preocupe essa neura antes de aniversários sempre ocorrem ou quase sempre...com que pensa de muito sobre tudo
Fico assustada com o quanto me identifico com cada coisa que você escreve, isso da uma sensação de acolhimento, talvez ? Acho que é sobre sentir que esses pensamentos não passam somente pela minha cabeça e de alguma forma sentir isso coletivamente trás um certo conforto...faz sentido ?