o último com 29
para o primeiro com 30
“Depois dos 30, a conta chega”.
Foi o que me disseram. “Mais contas?”, foi o que, humildemente, pensei.
Para falar a verdade, eu não tinha expectativas de chegar aos trinta anos. Por algum motivo, na minha cabeça, eu ainda teria 20 anos por muito tempo. Ainda estaria em meados de 2019.
Eu não imaginava viver o ano de 2026, tal qual ainda não vislumbro 2030, porque tenho uma certa sensação de distância e de que o tempo não é tão rápido assim, quando, na verdade, ele é o tempo, e isso já nos lembra que há tempo.
A minha expectativa de vida é duvidosa. Não no sentido de que quero viver menos ou de que irei viver menos, não tenho essa resposta. Mas é porque eu quase não consigo responder quando me perguntam sobre o futuro.
Ou melhor, eu acho que não consigo responder. Não com base no que esperam. Mas, no que eu espero, eu consigo pensar em: saúde, estar ao lado das pessoas que eu amo, ter um livro publicado, continuar escrevendo, ter ou não ter filhos (Ruth Manus, te amo) e o que mais?
Talvez eu ainda não saiba o que mais, agora. Mas penso em voltar a estudar, e isso pode mudar algumas rotas. No entanto, eu ainda sinto algo dentro de mim me dizendo para eu estar aberta à vida. Sussurrando no meu ouvido algo como: “confia”. No mesmo ouvido que já escutou, por vezes, “desista”.
E desistir também é importante, em alguns momentos. Mas, quando essa fala vem de dentro - especialmente quando estamos emocionalmente quebrados -, o assunto é diferente e requer um cuidado especial. Quando eu falo saúde, eu não espero apenas a física, mas a mental também. Ainda é latente o medo da depressão, por exemplo.
Hoje é o meu último dia com 29 anos. Estou envelhecendo e, até o momento, eu tenho gostado. A parte mais triste, para mim, é saber que as pessoas do meu lado também estão envelhecendo. É a despedida que vem com a idade. Ou que se espera de uma idade. Este assunto toca fundo em mim.
Até há alguns anos, eu não falava sobre a morte. Conviver com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo é difícil. Nos meus momentos de ansiedade, sinto que, ao pensar na morte, algo acontecerá. Por isso, preciso piscar 20 ou mais vezes para que ela não venha. Ou repetir: “tudo certo”, “tudo certo”, “tudo certo”.
Hoje, eu a vejo de uma maneira um pouco diferente. Não acredito que ela venha se eu chamar - e olha que já a chamei nos meus tempos de sofrimento -, mas ela é o contraponto da vida. E não conseguimos, ou podemos, fugir dela. O que podemos é cuidar da gente, de quem está ao nosso lado. Fazer escolhas que nos permitam viver com qualidade.
Agora, falando sobre o futuro, uma pessoa me chamou outro dia e disse que fazer 30 anos foi um divisor de águas. Mas, cá entre nós, eu sinto que a vida, de um modo geral, é um divisor de águas. Aos 29, eu senti muitas coisas. E talvez sentir seja o fardo e a beleza da vida, seja lá qual for a sua idade.
Não imaginava ter uma casa aos 30, mas eu tinha grandes expectativas de que criaria a tal casca. Aquela que nos torna um pouco mais resistentes. Ou, quem sabe, a minha seja realmente mais fina ou do jeito que deu para criar.
Sinto que consigo lidar melhor com algumas emoções - mentira, fui aos Correios hoje, no almoço, e fiquei pistola com um novo sistema que só complica a nossa vida -, mas continuo acreditando que preciso de ajuda para aprender a encaixar algumas peças (ou tirá-las do jogo).
Apesar do humor, eu me preocupo com as definições que eu ainda não tenho. Não é algo que me deixa altamente angustiada, mas eu me preocupo. E, quando eu me preocupo, eu arranco meus cabelos. Convivo com a tricotilomania, que vem deixando buracos na minha cabeça. Por isso, se for para rolar algum combinado após os 30, acho que cuidar disso é um bom começo.
Se tem uma coisa que eu aprendi é que o acaso não chega com hora marcada e, se queremos encontrá-lo, precisamos entender o caminho - que, por vezes, não é justo. Tem quem já tenha o caminho pronto e quem ainda precise de insumos para construí-lo.
Eu aprendi muito cedo que as coisas não seriam fáceis. Mas eu acabei me acostumando com o não dar certo, tanto que o peguei como mantra para a vida. Por isso, aos 30, eu também quero dizer que, olha, a gente também merece dar certo.
Não quero mais o sofrimento como balizador do sucesso. Eu quero a minha paz de espírito como balizador de sucesso. E isso envolve o entendimento de que também sou digna de celebrar o que não celebro.
Tenho muitas outras coisas guardadas em mim, algumas que eu ainda estou processando. Não vai ser hoje, na virada do dia, ou amanhã, no dia do meu aniversário, que eu terei a compreensão que tanto espero.
Não quero mais clamar pela finitude, mas por vivê-la enquanto ainda é possível. E, das coisas mais bonitas que eu aprendi, é que o amor é a melhor forma para isso.
Por isso, o último com 29, um pouco estressado por conta dos Correios, não chega com perfeição, mas repleto de angústias e de amor também.


Feliz aniversário :)
A contagem do tempo e as reflexões inevitáveis, quando está próximo de fazermos aniversário, sempre me deixaram um pouco angustiada. O medo de não conseguir viver o suficiente pra ter algum sonho realizado, no meu caso era ter um " cantinho pra chamar de lar". Ou quando consegui ficar tensa achando que algo de ruim iria acontecer. Amanhã você completará 30 anos, uma idade muito boa, logo publicará seu livro, quem sabe volta a estudar, mudar a rotina. E assim a vida acontece, dia após dia. Um forte abraço