quem eu costumava ser
e quem hoje eu sou
Estou lendo um livro chamado “A dor e a delícia de envelhecer”, em que a autora, aos 85 anos, responde, em cartas, o que é envelhecer. Em um determinado momento, ela relata que, até hoje, após oito décadas, ainda se incomoda quando está ociosa, como se tivesse que produzir o tempo todo.
O livro tem uma escrita pessoal, repleta de experiências que narram a vida de Sophy Burnham, com seus costumes e ideologias, o que nos traz para perto da autora. Ainda falando sobre o fazer/produzir, Burnham diz que, hoje, está apenas preocupada com o que ela pode ser. E que “ser” também demanda um esforço.
Ela também relata que, de uns anos para cá, vem perdendo a empolgação com algumas novidades e está apenas observando - e traz esse sentimento do “observar” como algo rico, reconhecendo seus privilégios. É o que ela chama de contemplar. Ela está contemplando a vida, digamos assim- o que não se trata de uma felicidade em si, mas de um contentamento.
Por sua vez, hoje, no almoço, eu estava falando com a minha mãe sobre algumas questões pessoais, sobre algumas fofocas da adolescência ou até mesmo da minha mais recente experiência na faculdade, da qual já se passaram mais de dez anos.
Comentei comportamentos que eu costumava ter, ou melhor, quem eu costumava ser. E tenho tantas histórias sobre isso, algumas que me fazem rir e outras que me causam um certo espanto. Ela também riu e agradeceu pela minha presença - e por coisas piores não terem acontecido no passado.
Terminamos de almoçar, lavei a louça e voltei ao trabalho. Há pouco, fiz uma pausa para mandar mensagem de feliz aniversário para uma amiga que, inclusive, conheci na faculdade. Lembro como se fosse “ontem” desse encontro.
Para ser bem honesta, na minha cabeça, eu conheceria na faculdade pessoas dispostas a estudar, pessoas que os pais arcavam com os custos e que não dariam valor ao processo, pessoas preocupadas apenas em frequentar o bar, beber cerveja e, quem sabe, usar alguns itens ilícitos.
Como fui bolsista na faculdade, eu entrei - com os demais bolsistas - uma semana depois do começo das aulas, porque tínhamos algumas pendências com os documentos e afins. Não conhecia ninguém e me sentia um pouco “perdida”. Até eu conhecer a Ana.
A Ana, na minha cabeça, se enquadrava no grupo das pessoas que não estavam muito interessadas. Acho que senti isso pelo seu jeito descolado e descontraído. Foi um julgamento, eu sei.
Resumidamente, não sei se eu conheci a Ana ou se a Ana me conheceu, mas, a partir daquela primeira interação, iniciava-se um ciclo de quatro anos seguidos juntas. Vivemos tantas coisas juntas, tantas coisas atreladas especialmente ao que costumávamos ser.
Pude quebrar todos os conceitos injustos que tive sobre ela. Como eu, ela também estava interessada em aprender - e isso não a deixava menos divertida. Estávamos sempre juntas, especialmente no transporte público, local em que passávamos uma parte considerável do nosso tempo.
A verdade é que vivemos muitos perrengues juntas - e, podem me julgar, mas eu viveria todos novamente - só para passar mais tempo com ela e nessa fase da vida, da qual sinto uma saudade considerável.
Os meus olhos ficam marejados só de lembrar de tudo isso, porque eu acho que foi a época em que mais me senti viva e sendo eu. Eu não vivia uma personagem, eu era eu e isso, pela primeira vez na vida, era suficiente.
Muito do que eu costumava ser, eu ainda sou. Mas muito do que fui não me cabe mais. Apesar disso, estou disposta a ser e deixar de ser quantas vezes forem necessárias. Porque, para mim, ser é igualmente importante quanto viver. Só vivemos se somos.
E muito fui com a Ana.
Lembrar do seu aniversário, da faculdade, de mim, das fofocas da adolescência e das coisas que ainda me proporcionam sentimentos nostálgicos me fez pensar no tal livro, o qual ainda estou lendo.
Desde o momento em que comecei a leitura, tenho me olhado de um jeito diferente e observado as coisas de uma maneira diferente. Não sei o que mudou em mim, mas algo está mudando.
Talvez seja a leitura atrelada ao ano em que completo 30 anos? O fato de ter celebrado o aniversário da minha sobrinha de APENAS 12 anos e ter presenciado uma cantoria, puxada por seus amigos, que gritavam: “com quem será, com quem será que a Ana vai casar…”. Sim, meus amigos, isso ainda existe.
Não sei.
Se foi o aniversário da Ana, se foram as memórias desbloqueadas hoje no almoço ou só eu sentindo tudo isso.
Mas foi o que fez nascer mais uma newsletter sem periodicidade da Querida Sanidade.
Eu nunca sei quando a próxima virá.
Mas sei que virá.
Ou melhor, assim espero.
Obrigada pelo seu tempo.



seu texto me remeteu a época ,também fui bolsista do crédito educativo ,hoje Fies, passei muito susto em transporte público pra chegar em casa as 23:30 em Parelheiros e levantar as seis da manhã pra ir pro trabalho. Conheci uma aluna de psicologia chamada Mariko e acredite até hoje somos amigas. Além do conhecimento adquirido e dessa amizade não sinto falta daquele tempo por traumas de tantas dificuldades financeiras .Atualmente tenho ocupado meu tempo em usufruir do tempo presente, esse ano em abril entrei pra 3ª idade e isso me deu uma "sacudida"