querer dar certo
no que nem sei se é certo
Há cerca de uma semana, o psiquiatra mexeu na minha medicação. Ele diminuiu a dosagem de um remédio, pois achou que estava muito alta, e aumentou a dosagem de outro para “equilibrar”. Ele me perguntou o que eu achava e eu apenas concordei. Havia esquecido dessa sensação estranha que é se adaptar às mudanças medicamentosas.
Me sinto mais sonolenta, mas tenho culpado a vitamina D, porque é o que me parece mais fácil de se fazer. Os meus exames de sangue estão em dia. Fui à ginecologista na quarta-feira e tenho novos exames para fazer. Eu não posso perder a data das guias, porque eu sou a pessoa que perde. E falo para você se cuidar lá no Instagram.
Nesta semana, não tenho terapia. Só na próxima. Então, fico conversando sozinha sobre quais serão as pautas do meu encontro quinzenal. Qual está pesando mais? Qual está me tirando o sono? Honestamente, tento aproveitar cada minuto da sessão - exceto nos dias em que eu apenas esqueço que tenho um encontro marcado às 13h de uma quinta-feira.
A verdade é que sinto que, a cada semana, estou lidando com alguma questão. E a desta semana é o bendito conflito sobre o que é dar certo. Tenho associado esse sentimento às mensagens que recebi por conta do prêmio que ganhei. Eu entro em pânico quando me dizem: “Agora você vai voar” ou “As coisas vão começar a dar certo”.
O que não sabem é que tudo o que eu mais quero é manter os pés no chão. Morro de medo de altura. O outro ponto é: o que é dar certo, afinal? Comecei a pensar se eu não deveria, lá no passado, ter aguentado um pouco mais e investido na minha carreira, a qual estava com uma ótima curva de crescimento.
Outro dia, vi uma vaga interessante - e, antes que o meu chefe leia, eu não estou procurando emprego -, mas aquela vaga me chamou a atenção. O salário era convidativo, os benefícios atrativos e ainda era no modelo híbrido. Enviei para alguns conhecidos com a seguinte mensagem: “acho que vale tentar”. Não eu, eles.
Em paralelo, comecei a me preocupar porque gastei demais nos últimos dois meses, tanto no meu aniversário quanto na saga da estante e da mesa do meu quarto. “Vou manter um pouco mais os pés no chão”, pensei comigo mesma. Mas vira e mexe vem aquele dilema do: será que eu deveria ter aguentado um pouco mais lá no outro trabalho?
A parte desesperadora é quando esse pensamento tromba com a idealização da gratidão. Aquela que te faz sentir culpada por reclamar, questionar, duvidar. Parece que a escuto falando: “você deveria agradecer mais”. Não quero silenciá-la, mas também não gostaria de entrar em um embate. Sinto que sou boa fugindo.
Nesta semana, sentada ao lado do meu pai na sala, ele me disse que seria legal se eu comprasse um carro para perder o medo de dirigir e para, assim, conseguir levá-los para passear. Ao mesmo tempo que quero, também quero juntar um dinheiro para um apartamento, quem sabe, ou para fazer uma viagem.
Eu sei que ele não fez por mal ou com a intenção de me gerar essa ansiedade. Mas, do lado de dentro, me deu uma cambaleada. “Eu deveria ter me planejado melhor nas coisas”, fiquei refletindo. “Mas você tem que ser grata por tudo o que já conquistou”, repete a bendita voz da gratidão. Desculpe, estou brava com ela.
Esses dias, ontem ou anteontem, eu achei que seria uma boa ideia assistir a vídeos do TikTok antes de dormir. Por quê? Eu realmente não sei. Parece como quando você fala com uma criança: “não coloque a mão no fogo, vai queimar” e ela coloca. Me senti exatamente nesta cena.
O meu algoritmo me levou a um vídeo de uma influenciadora - extremamente bombada nas redes sociais - em que ela mostrava o seu apartamento. Puta merda. Não vou assistir. O que eu fiz? Assisti. Me deparei com ela mostrando a sua decoração, o seu ofurô e o espaço para receber os amigos.
Fui dormir pensando que temos realidades completamente diferentes. Mas também refletindo se não foi falta de esforço da minha parte. Desta vez, a consciência não me pediu nenhum agradecimento, apenas me deu espaço aos questionamentos que sentimos quando nos comparamos.
Hoje eu estava na sala com a minha mãe e o meu irmão ligou. Eles falaram sobre o prêmio. Algo como “viu que legal?” e sei que não é por mal, mas as pessoas também questionam quando é que eu vou começar a ganhar dinheiro. Escutei a minha mãe responder algo como: “Ah, sim, agora falta isso”.
A minha família não me cobra nada em relação a isso. Mas, para eles, é muito insano ter oitenta mil seguidores e ainda não ter uma renda. Outro dia, a minha irmã me falou que eu deveria investir no TikTok. Novamente, não me cobrando, mas incentivando a encontrar “formas” para também monetizar.
Por mais que eu não tente pensar em dinheiro, vivemos em um sistema em que nós somos lembrados, o tempo todo, do valor que ele tem. E me sinto péssima quando penso nisso. Mas é uma pauta válida, eu sei.
O ponto é que tudo o que imaginei sobre “dar certo” ao longo dessa semana foi sobre ter um carro, um apartamento, monetizar, ter um cargo maneiro e um ofurô (?). Escrever isso, ao mesmo tempo que me gera um pouco de vergonha, me faz perceber que o sistema está em mim.
Ao mesmo passo, me recuso a acreditar que só isso é dar certo. Mas leva um tempo para a gente processar tantas informações. Leva um tempo para a gente relembrar dos nossos valores. Leva um tempo para deixar a comparação de lado. Leva um tempo para a gente voltar para a realidade e lembrar que não temos tudo, mas há muita felicidade no que temos também.
Percebo que este não é um dilema somente meu. Mas de alguns amigos, amigas e conhecidos. Ontem, em um evento online do trabalho, um rapaz relatou como se sente mal quando começa a se comparar com os outros.
Crescemos escutando que não somos todo mundo, mas insistimos em nos comparar, nos dias atuais, com pessoas que cruzam a nossa tela em poucos segundos. Resumimos a nossa história em uma comparação patética com alguém com uma realidade tão diferente da nossa. Acreditamos que o dar certo existe, menos para a gente.
Cruel, cruel, cruel. É o que eu consigo pensar. Eu não quero um ofurô e, mesmo se estivesse com grana, eu não teria um ofurô, porque eu nem gosto de ofurôs, piscinas e coisas do tipo. Eu quero é escrever um livro, se não perder o medo de dirigir, quem sabe, ao menos, levar os meus pais para passear de ônibus, trem, metrô e por que não de avião?
Eu me recuso a acreditar que o dar certo esteja atrelado apenas ao que não temos. Eu dei certo. Você deu certo. E não é a falta que vai nos provar o contrário. O que ela pode nos dizer, talvez, é que o mundo é mais injusto do que justo.
Ufa. Acho que coloquei tudo para fora. Ou quase tudo.
Me desculpe pelo desabafo. Precisava escrever sobre isso.


Dar certo é pagar uma baita refeição em restaurante para os meus pais, eu sei que eles iriam gostar. É levar meus filhos para andar a cavalo, pelo menos uma vez.
É ter um carro e a gente passear em família. É comer pipoca na sala sem ninguém ter medo de um pai alcoólatra chegar e bater em todo mundo. É ver meu esposo sorrir feito criança, enquanto juntos dançamos no pátio.
Eu dei certo pra c@ralho.
Sem carro do ano, sem a cartela de clientes que imaginei que precisasse. Demos certo.
Nossa como é incrível perceber o poder das palavras, ler o que vc escreveu e me tocou aqui, pois vejo o quanto me identifico. Esse dilema da comparação é um desafio também… que a falta não seja sinônimo de fracasso e sim de possibilidade