ser tia
é um belo encontro
Eu tinha onze anos quando descobri que seria tia. Lembro que, na época, foi um susto para todas as pessoas, inclusive para a minha irmã. No começo, eu recebi a orientação de não comentar com ninguém, o que era muito difícil, pois a minha vontade era contar para todo mundo.
Hoje sei que o pedido estava atrelado a uma “proteção” contra o que as pessoas (algumas vizinhas) poderiam dizer. Eu não tinha clareza desse perigo eminente até ganhar um pouco mais de idade e virar assunto em algumas pautas - risos.
Moramos, até hoje, no mesmo bairro e conhecemos quase todos por aqui e, de um modo geral, temos uma boa relação. As coisas melhoraram nos últimos anos, mas, na época, falar sobre a gravidez era quase como um: “não falamos do Bruno”, aquela canção da animação Encanto, da Disney.
Eu não pude falar do Bruno, por um tempo. Até que pude (já era evidente). Curiosamente, a minha irmã ama nomes compostos. Não é à toa que o meu nome é Joice Cristina. Foi um pedido que ela fez à minha mãe. Só de ler “Joice Cristina” me dá arrepios, pois lembro que meu nome completo só era mencionado em questões de alto grau de periculosidade.
Pedro Henrique ou Maria Eduarda. Essas eram as opções, digamos assim. Não lembro ao certo como foi descobrir que seria Maria Eduarda, mas tenho uma recordação de comprar um body de R$8 para ela, pois era tudo o que eu tinha.
O nosso quarto - meu e da minha irmã - ganhava uma nova decoração: um berço. A expectativa era alta e, a cada mês, nos aproximávamos da chegada dela, a Duda.
No dia 30 de dezembro de 2007, ela nasceu. No mesmo dia, eu passei mal, vomitei e fui parar no hospital. O que chamamos de coincidência na época, hoje digo que minhas emoções sempre estiveram à flor da pele.
Não sei se hoje ainda é assim, mas, após o nascimento, a criança era levada para um espaço com vários bebês ao seu lado, todos em um bercinho. Quase como uma vitrine. Seria um berçário?
Lá estava ela, com seu rostinho inchado e cabelos presentes apenas na lateral, o que rendeu uma comparação ao meu tio Antônio. Quando ela chegou em casa, eu estava tão ansiosa e não sabia o que esperar. Eu fui de “eu troco a fralda” para “por que ela não para de gritar?”
Sim, os gritos eram uma forte característica da Duda, imagino que por conta das cólicas. Foram algumas boas madrugadas acordadas para aliviar essa sensação. Eu aprendi a fazer o “tetê”, pois a minha irmã não tinha leite. Eu amava fazer, inclusive. Me sentia útil, para falar a verdade.
O que eu não sabia, meus amigos, é que alguns poucos anos depois, a Duda se tornaria quase uma sobrinha-irmã. Ou seja, ela não gostava que eu a pegasse no colo - eu até entendo, pois uma vez a derrubei, me desculpe, Duda. E ela se tornou uma mini infratora com suas agressões espontâneas (eu era o alvo).
Não éramos tão próximas, especialmente porque ela pegava todas as minhas coisas, meus livros e tudo mais. Brigávamos como irmãs. Hoje, aos seus quase dezenove anos, eu a nomeio como um pinscher em evolução.
Brincadeiras à parte, ser criança e ser tia foi uma grande descoberta para mim. Eu fazia questão de ser chamada de “Tia”. Quando ela falava um “Joice”, eu apenas não olhava. Então, era até engraçado andar na rua com ela, que acabou grudando em mim como um chiclete em certa fase da vida.
Ainda moramos juntas, digamos assim. Há cerca de dois anos, tivemos uma grande discussão, porque digamos que eu seja um golden e ela um pinscher. Mas depois passou. No geral, a gente se dá bem, ela me orgulha muito e eu admiro para caramba o seu esforço, a sua dedicação, a forma como ela observa o mundo, respeita as pessoas.
Por algum motivo, quando criança, eu tinha certeza de que ela seria da pá virada, seja lá o que isso signifique. Hoje, uma das coisas que eu mais gosto é de ir buscá-la no trabalho junto com meu pai. Ela é Jovem Aprendiz em uma empresa na área de Qualidade. A gente ficou tão feliz quando ela passou.
Pois bem. A saga “ser tia” não parou por aí (e espero que eu tenha novidades no futuro, risos). Aos meus dezoito anos, lembro da minha irmã passar mal e eu ficar com medo de ser uma virose e pegar.
Vou até o quarto da minha mãe e vejo minha irmã chorando (de emoção), pois havia descoberto que estava grávida. Eu tinha uma outra mentalidade, uma outra postura e, desta vez, não era um segredo. OU SEJA: EU VOU SER TIAAAAAA!
Eu fiquei tão feliz. Presenciávamos mais uma mudança nos quartos: minha mãe deixava o dela para minha irmã, meu irmão havia saído de casa - então o quarto dele ficaria para mim e para a Duda - e a minha irmã teria um quarto maior para cuidar da minha sobrinha, a qual foi dada, no começo, como Pedro Henrique. Até descobrirem que seria a Ana Júlia. Sim, nomes compostos novamente.
Fui convidada para ser a madrinha de consagração. Não ganhava muito neste período, mas fiz uma ficha em uma loja do shopping em que eu trabalhava e parcelei uma saída de hospital, uma das mais lindas que já vi. Ela era azul (minha cor favorita) e bege.
Quando recebi a notícia do nascimento da Ana, eu estava trabalhando. Foi um certo susto, pois ela nasceu com uma cardiopatia, um sopro no coração, e foi direto à UTI Neonatal. Foram dias de muita aflição e de medo. Ela recebeu alta, mas tínhamos um cuidado a mais com a sua saúde, pois até uma gripe era perigosa para ela.
Eu descobri, novamente, um dos maiores amores da minha vida. Um pouco mais madura, eu a trocava e não me importava de sujar as mãos, até comia tranquilamente após um estrago catastrófico em suas fraldas. Ela chorava de madrugada, eu a pegava no colo, descia até a sala e ficava com um pacotinho enrolado. Ela dormia, mas eu queria continuar ali, olhando para ela.
Com um ano de idade, ela fez uma cirurgia por conta do sopro no coração e lembro quando chegávamos ao hospital. Ela estava começando a andar e ficou tão feliz quando nos encontrou: eu, meu pai, minha mãe e a Duda.
Hoje, dia sete de maio, a Ana completa 12 anos. No dia 30, a Duda faz 19. Em julho, eu completo 30 anos. Temos uma boa relação. Ontem, a Ana conversou comigo e pediu para eu não fazer nada vergonhoso na sua festa no sábado, pois seus amigos estariam presentes. “Eu não vou correr igual ao Naruto”, eu disse.
Eu ainda a vejo como a minha “ninha”, como eu a chamo carinhosamente. Eu sei que ela está crescendo, mas eu amo abraçá-la. Ela não gosta de abraços, então eu sempre fico frustrada. Compartilhamos muitas risadas juntas. Ela assistiu à minha apresentação do TCC e era uma figura conhecida na minha turma da faculdade.
Dentre todas as lembranças que tenho na vida, ser tia é uma daquelas que eu guardo em uma caixa com sete chaves para não esquecer. Eu poderia deixar de ser tantas coisas, mas de ser tia, não.
Eu não sei se terei filhos, até já falei sobre isso por aqui. A experiência mais próxima que eu tive foi e é sendo tia. Uma das coisas que me salvou na vida foi ganhar o codinome “tia”.
Às vezes, eu me irrito de escutar “tia, tia, tia, tia”. Mas não imagino uma vida sem “tia, tia, tia, tia”. Eu não sou rica, mas elas acham que eu sou, porque comprei um celular melhor no ano retrasado.
Elas me pedem pix para batata frita e coxinha. De vez em quando, eu faço. Ok, eu não tinha limites, mas entendi que preciso ensinar que a vida não é um morango, então tenho feito menos.
Ao me tornar tia, eu descobri um amor diferente de todos que eu havia sentido. Não sei explicar muito bem, mas eu me emociono ao lembrar que, em algum momento do dia, eu vou escutar a palavra “tia” no corredor. O maior exemplo que eu posso proporcionar é o amor.
Me emocionei algumas vezes escrevendo este texto, mas sei que a Ana está esperando um texto meu, ela disse isso para a Duda. Todos os anos, eu escrevo para elas. É muito bonito saber que elas esperam.
Fato curioso: a Duda diz que não lê os meus textos até chegar em casa, porque ela sempre chora. No aniversário da minha mãe, encontrei as meninas aos prantos. Elas se emocionaram com o vídeo que fiz.
Como eu disse, ainda moramos juntas, digamos assim. E a minha maior saudade é antecipada: ela vem de um espaço que tem consciência de que, em algum momento, não nos veremos mais todos os dias.
Eu sinto saudade do que ainda tenho. Isso é amor ou um sofrimento antecipado? Não sei.
Hoje, eu quero apenas celebrar mais um ano de vida da Ana. Ela tem um dos sorrisos mais lindos que eu já vi.
Duda e Ana, obrigada.
Vocês não serão herdeiras de muitas coisas, mas meus itens de papelaria representam tanto para mim. Bem como meus Narutos, livros e luminárias.
Amo vocês.
Com amor,
Tia Joice.





Que lindo! Amor ser tia
Que lindo!!!